TRUMP: (SÓ) QUATRO ANOS


Não oito.

Esse é o consolo que têm 62 milhões de eleitores americanos que votaram contra Donald Trump. Os Estados Unidos são uma grande democracia, e seu sistema funciona perfeitamente. Mas está longe de ser o mais democrático.

Qualquer eleitor americano mais bem informado, seja ele um republicano liberal ou até um democrata socialista, sabe que Donald não ficará oito anos na Casa Branca. Sua política econômica e de segurança faz hoje eco nos ouvidos leigos assustados, mas sua prática levará internamente a um aumento gradativo de preços dos bens de consumo, gerando aos poucos nova crise e desemprego, e obviamente alimentando a futura insatisfação popular. O homem quer fazer economia por decreto, como tentaram Sarney no Brasil e Chavez na Venezuela.

Mas nada se pode alegar contra a eleição de Trump. Espionagem russa, recontagem, e outras desculpas servem apenas como choro de perdedor. Quem teria mais a reclamar, se perdesse, é justamente Trump, que teve contra si todo o poder da mídia comprometida com Wall Street. Na legislação americana, o tempo de divulgação de comícios que as televisões dão a um candidato é obrigatoriamente dado ao outro. E a grande mídia buscou negar ao republicano até esse espaço legal das imagens. Hillary aparecia em meio a multidões enquanto em Trump a imagem era fechada sem mostrar público. Isso sem mencionar que em todos os grandes jornais eram escolhidas fotos sempre benevolentes dela e também sempre ridículas dele.  Para os que pensam que a manipulação ocorre apenas no Brasil, vejam o vídeo abaixo, em que Trump grita com os câmeras que não querem mostrar o público de 31 mil pessoas de seu comício (e para mais, ponham “trump turn the camera” no youtube e verão muitos vídeos semelhantes, bem maiores e em diferentes comícios). 

video

Ou seja, a eleição americana foi absolutamente legítima, dentro das regras do jogo. E é aí que está o desvio democrático. Lá não são os eleitores que decidem a legislação. Eles elegem quem vai fazer as leis e quem vai governar. Como aqui. E seus candidatos cumprem as promessas. Diferente daqui. Ora, tudo o que Trump está fazendo foi prometido em campanha, tal como Obama o fez. Nem Duda Mendonça, do PT, nem Augusto Fonseca, do PSDB, podem ser marqueteiros eleitorais nos Estados Unidos. Lá não há surpresa. O sistema funciona, ninguém é lesado. As manifestações da garotada americana são bem claras: watch out Trump, my generation votes next (abra o olho, Trump, minha geração vota em seguida). Mas terão os americanos que esperar quatro anos para voltar à pauta que conduziu Obama por dois mandatos. 


Funciona melhor do que no Brasil, mas ainda assim é um sistema falho, por não ser direto. Fossem os próprios americanos a decidir as leis e jamais o muro seria construído. Vejam que a muralha será erguida ao longo de 3.141 km que envolvem os estados da Califórnia, Arizona, Novo México e Texas, que deram os seguintes votos aos candidatos democrata e republicano:

Califórnia
Dem: 7.362.490 (61,59%)
Rep: 3.916.209 (32,76%)

Arizona
Dem: 936.250 (45,39%)
Rep: 1.021.154 (49,50%)

Novo México
Dem: 380.724 (48,26%)
Rep: 315.875 (40,04%)

Texas
Dem: 3.867.816 (43,44%)
Rep: 4.681.590 (52,58%)

Somados, foram 12 milhões e meio de votos contrários às ideias de Trump, contra menos de dez milhões favoráveis. Se fosse uma democracia direta, como nos Cantões suíços, talvez somente o Texas decidisse pela construção da barreira. E mesmo essa decisão em si, a do muro, poderia ser questionada pela população pois, além de ser ineficaz por não cobrir os 3.141km, a fronteira texana com o México é toda ela natural, o Rio Grande, que terá sua paisagem deformada, descaracterizada. É provável que optassem por um reforço de policiamento fluvial, solução mais barata, mais ecológica e menos humilhante. O muro, sabemos todos, será um dia derrubado com festa, pirotecnia e recordações. Pena.

Hoje temos condições operativas de decidir tudo diretamente por internet. É claro que as próximas gerações vão exigir isso e vão conseguir. O mundo deles é assim, digital e direto.

Mas parece que vão ter que esperar os velhos morrerem.

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TEORI: DA CONSPIRAÇÃO

O voo de Ícaro, Jacob Peter Gowi
Recordando uma das versões do mito.
Dédalo, o engenheiro que construiu o labirinto de Creta, foi encerrado com seu filho Ícaro numa torre alta, para que não revelassem os segredos de sua construção. Dali projetou duas asas com penas de gaivotas, penas que foram presas ao corpo com cera. Antes de voar, o pai teria dito ao filho para não se aproximar muito do sol, que derreteria a cera, nem do mar, que molharia as penas. Filhos desobedecem, assumem riscos, são imortais. Ícaro subiu além da conta, caiu e morreu no mar.
O que nos importa aqui, nessa recordação do mito, é principalmente a reação do pai que, já em terra e desolado, exclamou: alae sanae (asas perfeitas). Tornou-se incapaz de viver a realidade, e para fugir dela e continuar vivo preferiu aceitar a ideia de que foi castigado pela força do destino.
Mesmo considerando que Dédalo estaria convencido de que a subida de Ícaro e o derretimento da cera fora uma fatalidade, podemos todos imaginar o seu rosto consternado, o seu peito dolorido, e a grande tristeza de alma que experimenta todo homem que, culpado, refugia-se na ilusão de que ninguém teve culpa na tragédia de seu filho.
É assim que todos os brasileiros estão se sentindo em relação ao acidente que matou o ministro do Supremo Tribunal Federal às vésperas da homologação que exporia todos os nomes do alto poder implicados nos casos de corrupção já delatados pela empreiteira Odebrecht. São 77 delações premiadas, e apenas na primeira há citação de 56 nomes de políticos que atualmente governam o país. Apenas na primeira das 77, a que poucos tiveram acesso. Nada sabemos das 76 restantes.
Não sejamos levianos de acusar sem provas. E não sejamos ingênuos de recusar as suspeitas como se fossem absurdas. Qualquer aluno de engenharia elétrica de terceiro ano ri da ignorância do homem comum que afirma ser impossível programar um avião de pequeno porte para ser acidentado. Um controlador lógico programável pode ser acionado por um simples celular que esteja conectado a uma central, ligada esta ao relé (fr. relais) do controlador. Provocar corte de combustível num momento de aproximação visual, ou mesmo um travamento da empenagem do avião, pode estar ao alcance de um clique de celular, desde que se tenha tido em algum momento acesso à manutenção da aeronave e à agenda daqueles que a podem utilizar. Com muito dinheiro em jogo, isso não fica somente nas telas de cinema.
Nós, homens comuns, podemos entender isso até sem ter conhecimento técnico, pois pequenas e menos complexas amostras dessas tecnologias já estão em nosso cotidiano. Por exemplo, quando usamos um GPS e ouvimos a voz feminina dizendo para virar à direita, quando chamamos um Uber e uma central faz a conexão entre nós e o motorista a ser eleito, ou quando nos surpreendemos com a precisão dos drones que sobrevoam as pessoas nas feiras de informática encantando a todos com as fotos que tiram.
Lembremo-nos de que toda investigação policial obriga-se a começar com a seguinte pergunta: quem foi beneficiado com o episódio?
Ora, para os que querem escapar dos efeitos da delação, bastaria mudar a composição do Supremo Tribunal Federal. No dia 5 de outubro de 2016 o Supremo decidiu, por seis votos a cinco, a manutenção da prisão dos condenados em segunda instância, que os deputados queriam barrar. Votaram pela manutenção das prisões os ministros Luiz Fux, Edson Fachin, Luis Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Teori Zavascki e Carmen Lúcia. Seis a cinco. Em números, para ficar bem claro: 6x5. Bastaria trocar um e todo o domínio do jogo mudaria de lado. Depois, seria só pedir ao Supremo tudo quanto for necessário: o fim das delações (por que dar crédito e benefícios a bandidos?), de novo o fim da prisão em segunda instância (não são todos inocentes até transitado em julgado?), o fim das conduções coercitivas e prisões preventivas (e onde estão os direitos humanos?).
Assim, estancada a sangria, começariam os parlamentares a legislar para que tudo voltasse ao normal.
Sem Teori, ganha-se esse tempo precioso, mais do que suficiente. Ainda que sejam feitas concessões para acalmar a opinião pública: é só fazer a coisa bem feita. Pode-se, por exemplo, mostrar integridade e isenção ao divulgar para a imprensa que só será escolhido o substituto de Teori Zavascki depois de o STF decidir quem será o novo Relator do processo da Lava Jato. Nesse meio tempo, tudo se ajeita. Somos 6x5 agora. O novo relator pouco poderá fazer.
Mas pode ter sido um acidente. Como também pode ter sido acidente a queda do avião que matou os diretores da Bradesco-Seguros em novembro de 2015, que tirou da operação Zelotes a possibilidade de futuras delações premiadas de conhecedores dos meandros daquela empresa (leiam o parágrafo quarto do post anterior, O Julgamento dos Horácios). Isso para não falar das mortes, muitas mortes anteriores, sempre às vésperas de momentos politicamente importantes.
Pode, sim, ter sido apenas um acidente. E tudo o mais será sempre apenas teoria da conspiração.
Pobre Dédalo. Melhor crer na fatalidade. As asas eram perfeitas. Alae sanae.


Em tempo: se votássemos diretamente as leis do país, jamais a escolha de ministros do Supremo seria uma decisão presidencial e partidária. Certamente seria dada independência à magistratura para que escolhessem quem melhor os representasse.

Vai demorar, mas chegaremos lá. 

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