COXINHAS E PETRALHAS - Uma possível releitura de Gounod


Este blog esteve em silêncio durante muitos meses por um só motivo: qualquer post seria apenas uma delenda carthago est em favor de uma revolução educacional que pudesse conduzir o país no futuro a uma democracia direta digital. Repetições viriam para cansar o leitor.
Mas, agora de manhã, no dia da votação pelo início do processo de impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, talvez seja a hora de lembrar a todos mais uma vez a inutilidade do sistema representativo.
No Brasil de hoje, após a retomada da “democracia”, duas ideologias teoricamente – e apenas teoricamente – se digladiam para ditar o projeto social e econômico do país. Os personagens parecem ter sido tirados da ópera Fausto, de Gounod.
 


Ato I
- socialistas no palco

A teoria:

O primeiro personagem é a esquerda, que está no poder. Até hoje somente. E mais alguns dias para que o Senado receba e aceite o processo de impeachment. Isso é claro como o sol – e veja que este post está sendo escrito muitas horas antes da votação na Câmara.
Ela, a esquerda hoje no Brasil, está representada principalmente pelo Partido dos Trabalhadores-PT, que em mais de uma década conseguiu enormes avanços sociais, tirando milhões de brasileiros da fome, incluindo ainda parte destes milhões na sociedade de consumo, e levando milhares de excluídos aos aeroportos e mesmo às universidades, seja por financiamentos, seja por cotas.

A prática:

Para conseguir isso, houve uma mudança de tática para a tomada do poder.
Foi duro quando o líder sindical, o Lula, já muito popular, foi derrotado pelo excelente projeto de marketing, com apoio da mídia, que conduziu Fernando Collor, o “defensor dos descamisados”, a uma vitória maiúscula contra o projeto de reformas sociais.
Ali começou o pacto de Fausto (Lula e parte do PT) com Mefistófeles (o Mercado), tal como na ópera de Gounod (em Gounod há mais romantismo do que no texto de Goethe). Fausto (PT), por amor de Margarida (povo), entendeu que só teria chance de fazer a felicidade de sua amada se tivesse um corpo belo, que a fizesse apaixonar-se. Assim, marqueteiramente, nasceu o Lulinha paz e amor, bem vestido, compreensivo, cumprimentando todos, inclusive os desafetos como o ex-presidente Sarney e o Senador Antônio Carlos Magalhães. Olhe para mim, Margarida (povo), fiquei jovem e bonito, e agora você vai confiar em mim. Não deu resultado imediato, pois ela passava por um relacionamento estável, de confiança, com Siebel (Fernando Henrique), que a tratava como flor. Ouçam a ária faites lui mes aveux (leve a ele minhas confissões), lindíssima, linda até mesmo para os que consideram a ópera uma expressão burguesa que ilustra toda uma época, com o luxo da elite dentro do teatro contrastando com a miséria do lado de fora. Passado o tempo de Siebel (Fernando Henrique), relações em crise, seu partido, o PSDB, não fez o sucessor (além da crise, o pretendente era muito feio) e Fausto (Lula) ganhou o coração de Margarida (o povo).
O segundo pacto com Mefistófeles veio com o chamado mensalão. Inicialmente pensado para fazer os deputados (demônios de Mefistófeles) votarem nos projetos populares, o fluxo enorme de dinheiro acabou seduzindo alguns membros do PT que não consideraram desonestidade pegar um pouquinho aqui e ali, e a coisa acabou transformando-se, mesclando-se o projeto de poder com projetos pessoais. Mefistófeles sabe como ninguém seduzir.
A casa caiu de vez quando uma mulher ingênua, tal como a personagem Martha, na história de Fausto, foi colocada no meio de tudo isso. Dilma deveria ser apenas figurante temporária, uma peça neutra, mas ao se deparar com o sistema promíscuo do poder, dia após dia tendo que aceitar ministros corruptos de partidos de aluguel como forma de governar, a mulher pôs um ministro da justiça que tudo fez para dar independência à Polícia Federal e que esta desse apoio irrestrito ao Ministério Público. Antes dela, a prioridade era o tráfico de drogas: todos os dias viam-se notícias de apreensões, às vezes grandes. Agora não era mais para pegar traficantes, que estes eram apenas consequência, e sim pegar a causa, ou seja, os responsáveis que não deixavam o dinheiro público descer para escolas e hospitais. Era para pegar fosse quem fosse em todo o país.
Começou a caça às bruxas e apareceram muitas bruxas. Começou a ser chamada, com boca torta, de "essa Diiiiilma", e para surpresa dela os casos mais notórios eram, evidentemente, os mais recentes, no próprio partido.
O PT histórico, de combate à corrupção, teve que mudar o discurso:
Antes... VOCÊS SÃO CORRUPTOS
Agora... VOCÊS TAMBÉM SÃO CORRUPTOS
O Brasil inteiro abriu fogo: TIREM ESSA LOUCA DAÍ !!! Primeiro, os deputados e senadores, em sua maioria investigados ou temendo que as investigações chegassem a eles; em seguida, os grandes conglomerados de todos os setores econômicos assustados com o exemplo do que ocorre na construção, com bilionários presos; finalmente, as grandes empresas de mídia, sentindo o pavor de seus anunciantes e tendo pavor ela mesma. Todos há décadas acostumados a pegar o dinheiro lá em cima, antes que esse dinheiro descesse para hospitais e escolas.
Não encontraram motivo real para acusá-la. Os boatos da mulherada das panelas, de que a filha enriqueceu (...está provado "cientificamente", meu marido disse!) não colaram: a mulher e a filha não têm nada ilegal ou que não tivessem antes, e não têm nenhum dinheiro no exterior, nem na Bulgária. 
O jeito era criar, e criaram. O tal jogo contábil, que o povo não entende e que ouve na televisão dizerem que é crime, a chamada pedalada fiscal, foi simplesmente pegar dinheiro de banco estatal para cobrir despesas sociais e repor no ano seguinte. Não podia? Não podia. Mas está longe de ser pegar dinheiro público para pôr no próprio bolso. Mereceria uma advertência, nada mais. O impeachment que se vai fazer é um ato semelhante a expulsar uma menina negra de um colégio de elite sob pretexto de que ela deu cola para um menino pobre que não sabia a matéria. Muitos outros deram cola, diria a mãe, mas nenhum passou tantas questões, retrucaria a diretora. Na verdade, a diretora não poderia dizer o verdadeiro motivo, o de que era um pretexto para tirar a menina negra da escola.
O impeachment já estava decidido, ou seria pelas pedaladas, ou pelas contas de campanha, ou pela obstrução da justiça. Aliás, essa obstrução evidentemente aconteceu. Essa foi a única, e real, desonestidade que a presidente cometeu, provavelmente no desespero, para não perder o apoio do próprio PT. Seria mais digno tirá-la por isso, e não por motivos “arranjados”.

Ato II
- neoliberais no palco
A teoria:

O outro personagem é a direita. Passada a fase de empolgação com a chegada da “democracia”, sobem ao poder homens mais sérios, no trato da res publica, do que Sarney e Collor, que estavam acostumados a ser coronéis em seus redutos e tinham administrado o Brasil como se este fosse extensão de fazendas deles no Maranhão ou em Alagoas. Fernando Henrique, professor da Sorbonne, Paris VII, sociólogo respeitado, com histórico de lutas pela democracia, consertou a economia do país desde que foi ministro nomeado por Itamar Franco. Pôs uma equipe que fez o Plano Real e tirou o país da espiral inflacionária em que estava metido. Na medida do possível, governou buscando o interesse público, comprando brigas com grandes conglomerados para obter ganhos sociais, como foi a batalha dos genéricos, e estendendo programas como o Bolsa-Escola para todo o país.

A prática:

Homem culto, preparado, é claro que o Fernando Henrique presidente percebeu ainda mais de perto do que quando estava no Senado a promiscuidade de um sistema em que bancos e outros setores econômicos financiavam campanhas de deputados de todos os partidos para que esses congressistas votassem por eles e ainda chegassem a conseguir ministérios para favorecer a passagem do dinheiro público para suas empresas. Mas, inteligente, ao contrário de Dilma Rousseff, não quis mexer no vespeiro, com medo da reação (e que reação, como estamos vendo até agora). Assim como Siebel que foi fraco ao lutar por Margarida, FHC preferiu fechar os olhos e aceitar as limitações. Fechou os olhos até para as grandes negociatas, com imensos prejuízos para o país, no que acabou ficando conhecido pelo título de “privatarias tucanas”.
A direita hoje tem a chance de voltar ao poder, aliando-se ao PMDB, partido grande, de aluguel, que não se importa em seguir linhas ideológicas ou econômicas díspares, desde que esteja no poder, ocupando ministérios, cumprindo sua obrigação de mediar recursos para os grandes grupos.

Ato III
- epílogo

Montesquieu, em sua obra máxima, O Espírito das Leis, deixa claro no Livro Quarto, capítulos IV e V, que a tripartição do poder não terá êxito se não houver um parlamento virtuoso e que este é decorrente da educação de seu povo. O brasileiro ingenuamente quer novas eleições para trocar todos os parlamentares. Ora, encha uma panela inteira com grãos de arroz; em seguida ponha nela uma xícara de feijão; mexa bastante; agora, tire um copo de grãos dessa mesma panela: sairá muito mais arroz do que feijão; devolva o copo à panela, mexa e tire de novo: sairá de novo muito mais arroz; e isso se repetirá enquanto tirarmos da mesma amostragem. Montesquieu é de uma obviedade que ainda hoje impressiona. Ao ver gente que tem algum estudo bater panelas é impossível não nos lembrarmos de Montesquieu.
O problema do Brasil não é ir em direção ao neoliberalismo da Merkel ou ao socialismo de Chavez.
O problema é que nossas crianças e nossos adolescentes estão distantes de exemplos de virtude, tanto em casa quanto na escola. Em casa, ouvem os pais falarem de cultura e honestidade, mas os veem depreciar os humildes e furar filas e valorizar coisas supérfluas. Na escola, ouvem os professores falarem de solidariedade e consciência social, e os veem cuidar apenas de suas próprias vidas e desfilar com o novo carro que compraram.

Hoje começam a tirar Dilma Rousseff, a louca.

Paradoxalmente, os corruptos tiram a doida em nome do combate à corrupção. Em nome do combate à corrupção, querem pôr em prática um projeto de autoajuda, para salvarem-se todos das acusações de corrupção. O Vice-Presidente Michel Temer apresenta uma proposta vencedora, ou seja, compõe-se com todos os que estão ameaçados para juntos votarem as reformas “necessárias”:

a) restauração do financiamento privado de campanhas, tranquilizando todos os segmentos que se beneficiam de verbas dos ministérios, ou seja, garantindo a continuidade do sistema.

b) desmantelamento da estrutura que alimenta as investigações da Lava-Jato. Os que consideram isso impossível, é só se informar sobre a tentativa que o congresso fez em janeiro último, alterando o projeto orçamentário da União para 2016, cortando 151 milhões do orçamento da Polícia Federal. A verba foi reposta pelo então ministro Eduardo Cardozo, que transferiu recursos do próprio Ministério da Justiça, exatamente os 151 milhões cortados pela Câmara de Deputados, evitando afetar as operações em andamento. Uma simples pesquisinha de Google pode confirmar esses dados.

c) reforma do judiciário, ampliando o número de membros do Supremo Tribunal Federal, o que permitiria ao novo governo nomear juízes de confiança para “puxar” os processos da Lava-Jato e dar outro rumo às conclusões, salvando-se todos.

É claro que para compor-se com o PSDB, Temer vai dar curso a uma agenda de reformas neoliberais, como desobrigar o governo de cumprir percentual de gasto com educação e saúde, de forma a permitir a privatização de serviços em larga escala e aliviar as contas da União. Virá também a chamada modernização das relações trabalhistas, com perda de direitos que, na visão neoliberal, hoje impedem em grande parte o investimento de empresas na contratação de mão-de-obra. Virão as terceirizações, e as transferências de serviços públicos para a iniciativa privada. Essa será a tônica de um novo governo supostamente mais eficiente, com apoio do congresso, tornando o Brasil mais atrativo aos investimentos estrangeiros para sair da crise.

Estar a favor ou contra essas últimas propostas é fazer uma opção ideológica.
O problema é que no Brasil tanto a proposta liberal quanto a social serão conduzidas por governantes e parlamentares que não representam os interesses da população. Não serão virtuosos fora do papel.

O problema brasileiro é um só: a formação de suas crianças.

Isso só vai ser resolvido com o tempo. Gramsci estava certo quando analisava as formas de chegada ao poder que podem conduzir a resultados permanentes. É de baixo para cima, instruindo os pequenos e os que estão em volta. Isso é trabalho para os poucos brasileiros que dão exemplo de virtude: formar outros brasileiros assim, crianças e adolescentes, para que um ciclo virtuoso comece a se reproduzir até ganhar giro geométrico. Na peça de Gounod, ouçam a ária anges purs, anges radieux (anjos puros, anjos radiosos).
Um desses meninos vai chegar lá em cima com menos demônios como adversários. Aí, sim, poderá enfiar rios de dinheiro na educação, criando escolas de tempo integral que façam como na Noruega. , eles põem os lanches para ser vendidos sem que haja balconista: a criança pega o que quer e deixa o dinheiro numa caixinha, ela mesma contando e pegando o troco.
Assim como as crianças hoje ensinam ecologia a seus pais, em 30 ou 40 anos teremos um parlamento decente.

A democracia direta virá, mas a roda da história é lenta, como o ponteiro pequeno do relógio que marca a hora: ele é lento, mas anda sem que possamos perceber.

Até lá, continuaremos a nos xingar de coxinhas ou petralhas. Inutilmente.

Ah, em tempo: no fim da ópera de Gounod, Margarida se salvou.


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O CONGRESSO SOMOS (?) NÓS


Mais lições sobre nossa democracia representativa.
Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, foi o terceiro deputado mais votado pelo Rio de Janeiro. Com 232.708 votos, ficou atrás apenas do circense Jair Bolsonaro (muito mais engraçado que o Tiririca) e da gospel Clarissa Garotinho, moça de família, que tiveram 464.572 e 335.061 votos, respectivamente. Juntos, representam mais de um milhão de cariocas e fluminenses.
Eduardo Cunha aprendeu a fazer política no antigo PDS, partido da ditadura militar, trabalhando para eleger Eliseu Resende em Minas Gerais, em 1982. A convite de Paulo César Farias, aquele dos escândalos do Collor, filiou-se ao PRN e assumiu a Telerj (indicado por PC), para envolver-se naquele escândalo dos US$ 92 milhões por favorecimento à NEC do Brasil. Nenhum problema,  naquele tempo os escândalos não davam em nada, eram logo abafados. O máximo que lhe aconteceu foi ser destituído da Telerj a pedido de Itamar Franco, tão logo este assumiu o país no lugar do deposto Collor.
Belo curriculum – ou melhor, bellum curriculum.
Eleito presidente da Câmara, usa a representação que lhe foi dada para ir à forra contra o Procurador Geral da República, ameaçando-o de vetar sua permanência no cargo, e até de convocá-lo para depor numa CPI. Assim mesmo, infantilmente, quase dizendo... “me dedou, vou te ferrar!”
Ou seja, o poder que lhe foi dado para defender o povo é usado justamente para ir contra a vontade popular, pois é certo que todos os brasileiros gostariam, sim, de saber se ele é ladrão, se não é, ou se fez bem feito o mal-feito.
E, pasmem, mais de duzentos mil brasileiros votaram nele para representá-los.
Re-pre-sen-tá-los. A democracia direta vai vir um dia, quando investirmos pesado em educação. Mas como é duro esperar.

P.S.: é óbvio que não preciso mencionar nada sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros.

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INDONÉSIA E BANGU

O que leva os brasileiros a desviar sua atenção de problemas próximos, reais e importantes, para se concentrar em problemas distantes e que não fazem parte de seu cotidiano?

Duas mortes aconteceram quase simultaneamente, como consequência da guerra do tráfico:
1) Aqui no Brasil – a morte de Larissa de Carvalho, menina de 4 anos, no último sábado, dia 17, aproximadamente às 15h, em Bangu, no Rio de Janeiro, atingida por uma bala perdida, na saída de um restaurante. Sua mãe, que doou os órgãos da filha, desabafou: “alguém tem que fazer alguma coisa para parar com essa guerra”.
2) Lá na Indonésia – a morte de Marco Archer, traficante internacional de 53 anos, fuzilado também sábado, dia 17, aproximadamente às mesmas 15h, na Indonésia, a 16 mil km (20 horas de voo) distante do Brasil. Sua tia, que trouxe de volta as cinzas de seu crematório, desabafou: “é uma pena exagerada”.

Não sejamos ingênuos. Ninguém consegue tamanha mobilização da mídia, nem tamanho empenho das altas esferas governamentais se não tiver gente grande, muito grande, pressionando o alto escalão do governo e ligando para os chefes de redação dos jornais.
Tudo bem, o poder executivo precisa de votos de deputados e senadores para poder governar. É obrigado a nomear ministros sabidamente corruptos, sob pena de não ter maioria no congresso e assim perder a capacidade de propor leis e orçamentos.
Mas acho que a questão que mais precisa interessar ao Ministério Público seria a seguinte: quem foram os deputados e senadores (ou ministros) que se empenharam pessoalmente para que o caso Archer tivesse tanto apoio da mídia e do governo brasileiros?
Com certeza a população sabe e sente que a morte de um traficante internacional lá longe não tem nenhuma importância para a vida dos cidadãos de bem que moram aqui no Brasil.
Por outro lado, era importantíssimo para organizações criminosas com braços internacionais salvar a vida desse traficante, sob pena de ver dificultado o recrutamento de outros brasileiros de classe alta que estejam dispostos a tentar entrar com grandes quantidades de cocaína num país que aplica pena de morte aos traficantes.
Existem muitos outros Marcos Archers passeando pelo globo.
Enquanto não houver democracia direta, nossos deputados e senadores estarão lá em Brasília representando não a mim e a você, leitor, e sim lutando pelos direitos de grandes grupos econômicos ou, pior, defendendo os interesses de grupos ligados ao crime organizado.
É claro que Demóstenes Torres não foi uma exceção.
E, àqueles que disserem “... mas são coisas diferentes!”, eu respondo:
Não. Não são coisas diferentes. São coisas essenciais.

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POR QUE SER CHARLIE?



Sim, é preciso ser Charlie.
Isso não quer dizer que os que são Charlie concordem com todas as sátiras feitas sobre tudo e sobre todos. Mas concordam com a máxima do iluminista francês Voltaire, o famoso “não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de dizê-las”. É justamente a defesa do direito de os outros serem diferentes de nós.
Liberdade total é a lei do mais forte, é a selvageria. Igualdade total é a proibição da diferença, é a morte da liberdade. Isso é questão de lógica, já estava no Emílio, de Rousseau.
O ponto de equilíbrio entre a liberdade e a igualdade define a qualidade de vida material e psíquica de todos os cidadãos, e não pode ser decidido por políticos. Diz respeito a cada um de nós.
Todos são conscientes de que na Síria, no Iraque, no Afeganistão, no Mali, ocorrem chacinas que matam muito mais do que o que se viu na França. E a notícia dessas mortes “menores” geralmente não passa de um pé de página de jornal. Isso, é claro, revolta jovens europeus muçulmanos que, sem emprego, e sentindo-se discriminados, sem autoestima na França, na Alemanha, na Inglaterra, por exemplo, são terreno fértil para a revolta. Ensina Maquiavel, “os homens lutam contra o príncipe quando não têm mais nada a perder”.
Essas rebeldias individuais, tanto quanto a criminalidade no Brasil, têm sim uma raiz de exclusão social, causada principalmente pela ganância dos políticos que entram no poder para fazer do dinheiro público um balcão de negócios para si e para seus grupos. Estivéssemos nós a decidir o uso dos recursos, pondo-os na educação e na saúde, e precisaríamos de menos dinheiro para segurança.
Só a democracia direta pode reverter esse processo.
Charlie Hebdo é um jornal sem ligação com grupos econômicos, um jornal que satiriza a tudo e a todos, indiscriminadamente. É voz direta. Rimos de algumas coisas e reprovamos outras. Tal como na democracia direta. É a liberdade mesma de expressão. E nisso esse atentado se difere de todos os demais vistos até agora.
Sim, é preciso ser Charlie.

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JE SUIS CHARLIE



Os jornalistas do satírico jornal francês Charlie Hebdo juntam-se aos muitos mártires que ao longo da história preferiram “morrer de pé a viver de joelhos” (je préfère mourir debout que vivre à genoux, nas palavras de Chab). Vale a pena recordar um pouco. Não apenas Sócrates recusou-se a dobrar os joelhos. Os irmãos Graco, e Espártacus, na Roma Antiga, lutaram até a morte contra a servidão. Hipátia, de Alexandria, no limiar da Idade Média, foi morta por insistir em ensinar que o mundo não era geocêntrico. Giordano Bruno, Marat, enfim, são muitos até chegar aos cartunistas do segundo milênio.
Não é possível haver gente que ainda queira, em 2015, impor sua verdade sobre a de outros. Todos temos o DIREITO de pensar como quisermos. Somos 7 bilhões de mentes, com 7 bilhões de verdades diferentes. Como conciliar isso? Na vida privada, cada um viva e pense como quiser, e na vida coletiva, no viver comum, decidamos civilizada, e diretamente. Ninguém precisa de “representantes da verdade”. Se deixarmos que nos tirem nosso espaço de liberdade e de democracia, estaremos sendo indignos da memória daqueles que morreram para que vivêssemos de pé.

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NOVA LEGISLATURA - QUE VENHA O CONSELHO POPULAR




Em 26 de outubro, dois dias após o segundo turno das eleições, a Câmara dos Deputados derrubou o decreto que criava a PNPS, Política Nacional de Participação Social. Esse decreto buscava implementar o que estava previsto no Programa Nacional de Direitos Humanos, aprovado desde 12/5/2010, estabelecendo os parâmetros mínimos para a criação dos conselhos populares que deveriam ser ouvidos para a formulação das políticas públicas, sejam municipais, estaduais ou federais.
Os conselhos, quando criados, seriam os primeiros passos para obrigar nossos representantes a ouvir a população, num primeiro momento, e a seguir a vontade popular, num momento futuro: a primeira medida concreta e importante em direção a uma democracia direta, embora ainda no modelo tradicional.
Nossos deputados derrubaram o decreto, alegando que era uma tentativa de golpe bolivariano, que tentava tirar as prerrogativas do Congresso, ou seja, uma traição. Percebam a falácia: transferir poder das mãos dos deputados diretamente para o povo que o elegeu é traição. Claro, pois aí como é que os excelentíssimos vão votar contra a vontade popular e a favor de seus grupos econômicos? Perdem esse direito, e perdem o financiamento de campanha.
Sempre que se fala em conselhos populares, os interesses econômicos tentam midiaticamente desqualificar a participação direta citando como exemplo Bolívia, Equador e Venezuela. Mas os conselhos funcionam, e muito bem, há muito mais tempo nas assembleias cantonais suíças. Na verdade, desde 1231, no antigo Cantão de Uri.
Desqualificar a participação direta porque ela existe na Bolívia (e é recente) é o mesmo que negar a democracia porque o Haiti é democrático (também recentemente) “e eu não quero que o Brasil vire um Haiti”.
Vamos ver se nessa nova legislatura o PNPS volta, como projeto de lei, e vamos ver se a sociedade se mobiliza, como em 2012, para começar a tomar as rédeas de suas decisões. 

CUIDADO! ELES VOLTAM E TENTAM DE NOVO



Subiu para ser sancionada pelo Planalto a redação final do projeto de reforma do Código de Processo Civil, o novo CPC, que busca tornar a justiça mais célere, entre outras coisas, impedindo ou pelo menos inibindo aqueles movimentos meramente protelatórios das partes que, sabendo ser perdedoras, tentam apenas ganhar mais tempo sem ter que arcar com as consequências da condenação.
Mas fiquemos atentos: as manobras já tentadas em 2007 e 2010 voltam à tona. De novo foi apreciado o projeto do então deputado federal pelo PFL (hoje DEM) da Bahia, Marcelo Guimarães Filho, que tentava incluir a possibilidade de penhora dos salários dos empregados em até um terço dos vencimentos. Ou seja, a volta da escravatura, embora parcial (começa assim). Em 2007, em votação praticamente secreta, quando os deputados e senadores estavam ausentes pelo fim de ano, essa aberração passou pela Câmara e pelo Senado, e foi barrado apenas pelo veto presidencial. Hoje, embora também seja aprovado no fim do ano (por que sempre em fim de ano?), as condições melhoraram um pouco -- um viva! aos bagunceiros dos “vinte centavos”-- e o grande quorum no plenário inviabilizava manobras sorrateiras. Que belo deputado esse Marcelo Guimarães Filho. Apesar de ter sido eleito para defender os que nele votaram, buscava alterar a lei para beneficiar os bancos. Esse político está, desde 2001, exercendo cargos legislativos, “defendendo o povo”. Por sorte da população, não estava mais no Ministério da Justiça o recentemente falecido Márcio Tomás Bastos. Ainda levará alguns anos até que a sociedade aprenda que o maior inimigo da democracia é justamente o fato de ela ser exercida por “representação”.

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