DOM E RAVEL

Lindo... emocionante!
Há pessoas conscientes que não entendem por que mensagens tão belas de amor e fraternidade irritam alguns amigos que aparentemente também são "bons".

Não é simples, mas é possível entender.

Guillaume-Henri Dufour, engenheiro militar, líder e vencedor da guerra civil suíça de 1847, dedicou-se a construir escolas e pontes, e também criou a Cruz Vermelha Internacional. Ele FEZ o que era preciso fazer, com guerra, com engenharia e atitudes coerentes com tudo aquilo que aprendeu da trilogia de Rousseau -- Contrat Social, Discours et Emille -- e ajudou a construir um país digno para todos. A força da educação: na Suíça, as crianças recebem uma arma e aprendem a atirar com 9 anos de idade, e essa mesma Suíça é um dos países mais pacíficos do planeta. Sobre Brasil e Dufour, se interessar, vá a um post anterior: Sem a música, a vida seria um erro

Assim, há cidadãos que entendem muito bem o que se passa no país e no mundo, ou seja, sabem como poucos quais são as regras do jogo que criam a opressão e a injustiça tanto de direita quanto de esquerda. E essas pessoas se sentem, ainda que inconscientemente, agredidas pela hipocrisia voluntária ou involuntária das mensagens de flores, passarinhos, amor e bondade -- bem ao estilo Rubem Alves.

Sim, é inconsciente, mas sentem-se agredidas... porque são mensagens compartilhadas, com bom coração, tanto pelos ingênuos quanto por aqueles que são responsáveis por tudo o que impede que o quadro de violência e opressão seja superado. Que as pessoas aconselhem umas às outras a ser boas e pacíficas, com pena dos pobres e dos desvalidos, é justamente o que interessa a todo governo que impede o acesso da população à capacidade de pensar e decidir, seja negando-lhes escolas de excelência, seja por controle midiático.

É delicioso ver vídeos, imagens, ler textos, respirar fundo, olhar para o céu e sentir-se uma alma bondosa... "ah, se dependesse de mim"... "por que há tanta maldade no mundo?"

Nesse bolo de sensibilidade encontra-se mesclado todo tipo de gente: os bons, os ingênuos, os egoístas, os corruptos. Encontram-se aí os que saem às ruas para reivindicar tudo em nome de seus grupos, mas que jamais sairiam para pedir mais verbas e qualidade para educação. Ou seja, para pedir A ÚNICA MEDIDA que -- sabemos todos -- redirecionaria o país e ironicamente estancaria a necessidade de se mandar mensagens de caridade e solidariedade.

Todo mundo sabe, mas não faz. Ninguém bate panelas pelo ensino. Ninguém ocupa a esplanada dos ministérios exigindo educação de excelência para todos. Os que trocam mensagens solidárias são em grande parte os mesmos que condenam as invasões nas escolas. Os mesmos que, consciente ou inconscientemente, mantêm a população (e a si mesmos) naquilo que Kant chamou de menoridade.

CIEP, Rio de Janeiro
Em 1983, Darcy Ribeiro criou um projeto revolucionário de escola integral no Rio de Janeiro, os CIEPs. Construiu pelas mãos de Oscar Niemeyer 512 unidades com capacidade para mil alunos cada uma, ou seja, tirou mais de meio milhão de crianças de seus lares desestruturados e as pôs em escolas que mais pareciam universidades de primeiro mundo. Com todas as refeições e atendimento médico e odontológico. Aulas das 8h às 17h todos os dias e programas especiais nas férias. Professores à tarde para ensinar a fazer as tarefas da manhã. Isso funcionou de 1983 a 1987, mas a Rede Globo de Televisão, a mesma que conduz o Criança Esperança, fez campanha contra o projeto, proibindo divulgação dos CIEPs e mostrando buracos no asfalto e lixo esquecido em bairros, para dar à população a ideia de que o Rio de Janeiro estava desgovernado. Assim, fez Darcy Ribeiro perder a sucessão estadual para Moreira Franco, o candidato apoiado pela grande mídia. Sim, foi isso mesmo que você leu. Moreira Franco. O mesmo que hoje "luta" pela escola de tempo integral. Ao eleger-se governador, o Angorá, como é chamado no esquema de corrupção da operação Lava Jato, imediatamente desfez o projeto educacional de Darcy, e devolveu todas as escolas ao antigo meio período, desativando tudo o que se referia ao projeto original. 

Moreira Franco e sua família com certeza compartilham mensagens de amor às crianças e aos desvalidos. 


Dom e Ravel, 1971


Você, leitor jovem, nunca ouviu falar de Dom e Ravel. Era a dupla musical popular mais famosa nos chamados anos de chumbo da história brasileira. Apoiada pelo regime militar, a dupla fazia músicas positivas, de amor e de esperança, que ajudaram a hipnotizar e imobilizar a população inteira. Alguns dos sucessos: Só o amor constrói, Eu te amo meu Brasil, Você também é responsável.

Escreva, no youtube: dom ravel so o amor constroi.

Depois de ouvir, pode ser que aprenda a perdoar as pessoas rabugentas que não curtem tanto assim as mensagens de amor e bondade.

Quando os brasileiros estiverem votando diretamente as leis, construindo seu próprio destino, talvez essas mensagens venham a fazer algum sentido. 



Do autor do blog, disponível em amazon.com.br  






DEZ PASSOS



"É preciso estancar a sangria"
Recordar é viver, mas é preciso acompanhar. Muitos brasileiros já se esqueceram da famosa gravação de Romero Jucá. Talvez seja a hora de recuperar o principal da informação.

Em maio de 2016, veio a público a gravação da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado (para ouvir ou ler todo o conteúdo, ponham no Google: romero juca gravacao). Tanscrevemos aqui, da Folha de S. Paulo, de 26/5/2016, uma parte da conversa que sintetiza o caso:

Na gravação, o ex-presidente da Transpetro afirma ao então senador do PMDB que, "a solução mais fácil" era colocar Michel Temer no comando da Presidência. Jucá concorda com o interlocutor e ressalta que somente Renan Calheiros, que, segundo ele, "não gosta de Temer", é contra a proposta de afastar Dilma do Palácio do Planalto por meio de um processo de impeachment.
"Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra", diz Jucá ao ex-presidente da Transpetro.
Na sequência, Machado destaca que é preciso "botar o Michel num grande acordo nacional".
"Com o Supremo, com tudo", enfatiza o ministro.
"Com tudo, aí parava tudo", concorda Machado.
"É. Delimitava onde está, pronto", avalia Romero Jucá, sugerindo que quem já está sendo investigado continuaria alvo da Lava Jato, mas quem ainda não faz parte da apuração do esquema de corrupção ficaria blindado.

Agora, quase um ano depois, vejamos, em dez imagens, o andamento do projeto.


Temer no lugar de Dilma
1) Temer no poder: passo fundamental. Aproveitar a crise. Bastou prometer tirar o país da crise econômica e fazer com que todos, povo e imprensa, se convencessem de que esse era o motivo do impeachment.

"Era um desabafo e não um plano"
2) Jucá na articulação: nomeado primeiramente como Ministro do Planejamento, Romero Jucá foi realocado para a função de articulador do Governo, visto que as gravações dos planos de combate à Lava Jato vazaram para a imprensa.

Sessão para anistia ao Caixa Dois
3) Anistia: em sessão noturna da Câmara, os deputados tentaram fazer passar uma lei que anistiaria os crimes de caixa dois, mas recuaram devido às reações da força-tarefa da Lava Jato, que tiveram apoio de parte da imprensa.

Em cima, votaram pela prisão:
Carmen Lúcia, Luís Roberto Barroso, Teori Zawascki, Luiz Fux, Edson Fachin e Gilmar Mendes
Em baixo, votaram contra a prisão:
Celso de Mello, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski, Antonio Toffoli e Rosa Weber 
4) Transitado em julgado: buscaram no Supremo Tribunal Federal conseguir que as prisões de condenados somente fossem autorizadas depois de transitado em julgado, o que faria com que os processos levassem de dez a vinte anos. Mas o Supremo decidiu, por seis votos a cinco, manter as prisões dos condenados em segunda instância. Duro golpe para o projeto.

Velório de Teori Zawascki
5) Morte de Teori: por "sorte" do Governo, morre o ministro Teori Zawascki, um dos que votaram pela manutenção dos condenados em segunda instância. Porta aberta para que o projeto contra a Lava Jato venha a ter maioria no Supremo.

Velhos amigos
6) Rearticulação: Gilmar Mendes, que havia votado pela prisão em segunda instância, reúne-se com Moreira Franco e Michel Temer no Palácio Jaburu logo depois do velório de Teori Zawascki, divulgando à imprensa ter sido apenas um encontro de velhos amigos.

"Fiquei surpreso por ser encontro num barco"
7) Maioria no Supremo: com a entrada de Alexandre de Morais no Supremo, o projeto ganha maioria na Corte e ainda a chance de  pôr no Ministério da Justiça alguém menos preocupado com a imagem pública e que consiga enfim redirecionar as ações da Polícia Federal. Assim que foi indicado, Alexandre de Morais reuniu-se, num barco particular, com senadores investigados.

"Delação premiada é dar voz a bandido"
8) Edison Lobão na CCJ: no Senado, para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça, foi nomeado um senador investigado pela Lava Jato, ferrenho defensor do fim da delação premiada. O instituto da delação é, no seu entender, "um absurdo jurídico, por dar voz a bandidos". Nesta quinta-feira, 16 de fevereiro, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão em escritórios de Marcio Lobão, filho do senador, investigado, como o pai, por desvios de dinheiro nas obras de Angra III e Belo Monte. O senador, entre outros papéis-chave, tem a missão de conduzir a sabatina dos indicados ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria Geral da República, ou seja, de certa forma escolher os próximos juristas que irão investigar os senadores envolvidos em corrupção.

Celso de Mello e Moreira Franco
9) Foro privilegiado: Temer cria um ministério que havia sido extinto e dá foro privilegiado a Moreira Franco, outro senador investigado na Lava Jato, e articulador do governo para sanar a sangria. Moreira Franco é aquele mesmo que, quando eleito governador do Rio de Janeiro, nos anos 80, desfez o projeto dos CIEPs de Darcy Ribeiro, projeto que revolucionava a educação -- integral -- para mais de meio milhão de crianças das periferias, e as afastava das mãos do tráfico.

E vem aí o novo Carnaval do Congresso
10) Futuras comemorações: mais uma festa dos representantes do povo.


Um dia os jovens não precisarão mais de representantes que decidam por eles.

Do autor do blog, disponível em amazon.com.br




NEM MAS NEM MENOS

Bruna Sena e Faissal Ellakkis
O Brasil se renova. Quem vê a fumaça atual não percebe que não há mais tanta lenha.

Todos estão apavorados porque vemos cenas de terror, mais que de violência. Degolam-se os poderosos das classes altas, buscando maneiras de estancar a sangria: tentam mudar as leis, torcer para desastres de avião, nomear quem os possa salvar. Matam-se os poderosos das classes inferiores, degolando-se dentro dos presídios e promovendo o caos do lado de fora.

A garotada que vem aí, a que gosta de estudar, tem outra formação, outra visão de mundo.

Nós, os velhos, somos violentos. E mentimos, dizendo e pensando que não somos. E tentamos fazer de nossos filhos a reprodução de nossa violência. Até conseguimos tornar muitos de nossos jovens violentos também, mas esses serão minoria entre os que estão pouco a pouco chegando ao comando do país, por meio de vestibulares e concursos cada vez mais difíceis. O funil é apertado, e gradativamente começam a entrar nos postos de comando somente aqueles que estudaram muito, e que têm uma visão de sociedade bem diferente da nossa.

O primeiro lugar da Fuvest foi de uma aluna negra, pobre, e que teve a competência de ser estudiosa em meio a todo tipo de violência, da desigualdade ao preconceito. E conseguiu porque encontrou jovens professores com boa formação, uns mesmo mal remunerados no Estado, outros, conscientes estudantes da USP, voluntários, que se interessaram por alunos como ela e de graça lhes deram os cursos preparatórios.

A grande mídia pôs holofotes nos piores exemplos de jovens médicos, deformados, como o caso de Richam Faissal Ellakkis, que deu receita e aconselhou a matar a paciente Marisa Letícia. Mas não deu nenhum destaque à grande maioria de jovens engajados que estão saindo das universidades públicas para construir um país melhor do que esse que receberam dos mais velhos.

Palhamédicos da UFTM
Imagine se esse processo não fosse apenas resultado espontâneo de jovens que acordaram para a necessidade de mudar o país. Imagine se investíssemos realmente, de verdade, em educação, de forma sistêmica.

Ah, Darcy Ribeiro, vox clamantis in deserto: investir em escolas para não ter que investir em presídios. Se o Brasil fizesse, mesmo hoje, um plebiscito sobre dotação orçamentária, sem dúvida o dinheiro público iria prioritariamente para a educação. Todos sabemos disso.

Mas teremos que esperar esses jovens chegarem ao topo.

Mas...

Mas ainda somos o país do mas,
o mas é nossa marca de ódio,
o mas é nosso disfarce para o ódio,
o mas permite que o assassino cruel se sinta bem -- e do bem -- ao apunhalar aquele que odeia,
o mas é a grande mancha que revela a hipocrisia de nossa alma.

Nas demissões:
você é excelente, acrescentou muito ao nosso grupo, mas...
Nos relacionamentos:
gosto de você, que foi importante para mim, mas...
No nono mês o médico diz:
você sabe que sempre fui favorável ao parto normal, mas...
Nas adoções:
não temos nada contra crianças maiores, mas...
Nos negócios:
sou correto, mas...

Enfim, não tenho nada contra:
... os negros, mas
... os gays, mas
... os pobres, mas
... os evangélicos, mas
... os nordestinos, mas

Quando votarem diretamente, os jovens vão pôr o dinheiro sim na educação, e ensinarão suas crianças a dizer de cabeça erguida o que pensam, sem precisar das vergonhosas manchas de personalidade que caracterizam o nosso discurso do mas.

O país está mudando, mas
poucos veem o ponteiro das horas se mexer.


Do autor do Blog, disponível em amazon.com.br  

TRUMP: (SÓ) QUATRO ANOS


Não oito.

Esse é o consolo que têm 62 milhões de eleitores americanos que votaram contra Donald Trump. Os Estados Unidos são uma grande democracia, e seu sistema funciona perfeitamente. Mas está longe de ser o mais democrático.

Qualquer eleitor americano mais bem informado, seja ele um republicano liberal ou até um democrata socialista, sabe que Donald não ficará oito anos na Casa Branca. Sua política econômica e de segurança faz hoje eco nos ouvidos leigos assustados, mas sua prática levará internamente a um aumento gradativo de preços dos bens de consumo, gerando aos poucos nova crise e desemprego, e obviamente alimentando a futura insatisfação popular. O homem quer fazer economia por decreto, como tentaram Sarney no Brasil e Chavez na Venezuela.

Mas nada se pode alegar contra a eleição de Trump. Espionagem russa, recontagem, e outras desculpas servem apenas como choro de perdedor. Quem teria mais a reclamar, se perdesse, é justamente Trump, que teve contra si todo o poder da mídia comprometida com Wall Street. Na legislação americana, o tempo de divulgação de comícios que as televisões dão a um candidato é obrigatoriamente dado ao outro. E a grande mídia buscou negar ao republicano até esse espaço legal das imagens. Hillary aparecia em meio a multidões enquanto em Trump a imagem era fechada sem mostrar público. Isso sem mencionar que em todos os grandes jornais eram escolhidas fotos sempre benevolentes dela e também sempre ridículas dele.  Para os que pensam que a manipulação ocorre apenas no Brasil, vejam o vídeo abaixo, em que Trump grita com os câmeras que não querem mostrar o público de 31 mil pessoas de seu comício (e para mais, ponham “trump turn the camera” no youtube e verão muitos vídeos semelhantes, bem maiores e em diferentes comícios). 

video

Ou seja, a eleição americana foi absolutamente legítima, dentro das regras do jogo. E é aí que está o desvio democrático. Lá não são os eleitores que decidem a legislação. Eles elegem quem vai fazer as leis e quem vai governar. Como aqui. E seus candidatos cumprem as promessas. Diferente daqui. Ora, tudo o que Trump está fazendo foi prometido em campanha, tal como Obama o fez. Nem Duda Mendonça, do PT, nem Augusto Fonseca, do PSDB, podem ser marqueteiros eleitorais nos Estados Unidos. Lá não há surpresa. O sistema funciona, ninguém é lesado. As manifestações da garotada americana são bem claras: watch out Trump, my generation votes next (abra o olho, Trump, minha geração vota em seguida). Mas terão os americanos que esperar quatro anos para voltar à pauta que conduziu Obama por dois mandatos. 


Funciona melhor do que no Brasil, mas ainda assim é um sistema falho, por não ser direto. Fossem os próprios americanos a decidir as leis e jamais o muro seria construído. Vejam que a muralha será erguida ao longo de 3.141 km que envolvem os estados da Califórnia, Arizona, Novo México e Texas, que deram os seguintes votos aos candidatos democrata e republicano:

Califórnia
Dem: 7.362.490 (61,59%)
Rep: 3.916.209 (32,76%)

Arizona
Dem: 936.250 (45,39%)
Rep: 1.021.154 (49,50%)

Novo México
Dem: 380.724 (48,26%)
Rep: 315.875 (40,04%)

Texas
Dem: 3.867.816 (43,44%)
Rep: 4.681.590 (52,58%)

Somados, foram 12 milhões e meio de votos contrários às ideias de Trump, contra menos de dez milhões favoráveis. Se fosse uma democracia direta, como nos Cantões suíços, talvez somente o Texas decidisse pela construção da barreira. E mesmo essa decisão em si, a do muro, poderia ser questionada pela população pois, além de ser ineficaz por não cobrir os 3.141km, a fronteira texana com o México é toda ela natural, o Rio Grande, que terá sua paisagem deformada, descaracterizada. É provável que optassem por um reforço de policiamento fluvial, solução mais barata, mais ecológica e menos humilhante. O muro, sabemos todos, será um dia derrubado com festa, pirotecnia e recordações. Pena.

Hoje temos condições operativas de decidir tudo diretamente por internet. É claro que as próximas gerações vão exigir isso e vão conseguir. O mundo deles é assim, digital e direto.

Mas parece que vão ter que esperar os velhos morrerem.

https://1drv.ms/f/s!AulPeunuSRp1hVVmVm0D4DdlG6_z

Do autor do blog, disponível em amazon.com.br  

TEORI: DA CONSPIRAÇÃO

O voo de Ícaro, Jacob Peter Gowi
Recordando uma das versões do mito.
Dédalo, o engenheiro que construiu o labirinto de Creta, foi encerrado com seu filho Ícaro numa torre alta, para que não revelassem os segredos de sua construção. Dali projetou duas asas com penas de gaivotas, penas que foram presas ao corpo com cera. Antes de voar, o pai teria dito ao filho para não se aproximar muito do sol, que derreteria a cera, nem do mar, que molharia as penas. Filhos desobedecem, assumem riscos, são imortais. Ícaro subiu além da conta, caiu e morreu no mar.
O que nos importa aqui, nessa recordação do mito, é principalmente a reação do pai que, já em terra e desolado, exclamou: alae sanae (asas perfeitas). Tornou-se incapaz de viver a realidade, e para fugir dela e continuar vivo preferiu aceitar a ideia de que foi castigado pela força do destino.
Mesmo considerando que Dédalo estaria convencido de que a subida de Ícaro e o derretimento da cera fora uma fatalidade, podemos todos imaginar o seu rosto consternado, o seu peito dolorido, e a grande tristeza de alma que experimenta todo homem que, culpado, refugia-se na ilusão de que ninguém teve culpa na tragédia de seu filho.
É assim que todos os brasileiros estão se sentindo em relação ao acidente que matou o ministro do Supremo Tribunal Federal às vésperas da homologação que exporia todos os nomes do alto poder implicados nos casos de corrupção já delatados pela empreiteira Odebrecht. São 77 delações premiadas, e apenas na primeira há citação de 56 nomes de políticos que atualmente governam o país. Apenas na primeira das 77, a que poucos tiveram acesso. Nada sabemos das 76 restantes.
Não sejamos levianos de acusar sem provas. E não sejamos ingênuos de recusar as suspeitas como se fossem absurdas. Qualquer aluno de engenharia elétrica de terceiro ano ri da ignorância do homem comum que afirma ser impossível programar um avião de pequeno porte para ser acidentado. Um controlador lógico programável pode ser acionado por um simples celular que esteja conectado a uma central, ligada esta ao relé (fr. relais) do controlador. Provocar corte de combustível num momento de aproximação visual, ou mesmo um travamento da empenagem do avião, pode estar ao alcance de um clique de celular, desde que se tenha tido em algum momento acesso à manutenção da aeronave e à agenda daqueles que a podem utilizar. Com muito dinheiro em jogo, isso não fica somente nas telas de cinema.
Nós, homens comuns, podemos entender isso até sem ter conhecimento técnico, pois pequenas e menos complexas amostras dessas tecnologias já estão em nosso cotidiano. Por exemplo, quando usamos um GPS e ouvimos a voz feminina dizendo para virar à direita, quando chamamos um Uber e uma central faz a conexão entre nós e o motorista a ser eleito, ou quando nos surpreendemos com a precisão dos drones que sobrevoam as pessoas nas feiras de informática encantando a todos com as fotos que tiram.
Lembremo-nos de que toda investigação policial obriga-se a começar com a seguinte pergunta: quem foi beneficiado com o episódio?
Ora, para os que querem escapar dos efeitos da delação, bastaria mudar a composição do Supremo Tribunal Federal. No dia 5 de outubro de 2016 o Supremo decidiu, por seis votos a cinco, a manutenção da prisão dos condenados em segunda instância, que os deputados queriam barrar. Votaram pela manutenção das prisões os ministros Luiz Fux, Edson Fachin, Luis Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Teori Zavascki e Carmen Lúcia. Seis a cinco. Em números, para ficar bem claro: 6x5. Bastaria trocar um e todo o domínio do jogo mudaria de lado. Depois, seria só pedir ao Supremo tudo quanto for necessário: o fim das delações (por que dar crédito e benefícios a bandidos?), de novo o fim da prisão em segunda instância (não são todos inocentes até transitado em julgado?), o fim das conduções coercitivas e prisões preventivas (e onde estão os direitos humanos?).
Assim, estancada a sangria, começariam os parlamentares a legislar para que tudo voltasse ao normal.
Sem Teori, ganha-se esse tempo precioso, mais do que suficiente. Ainda que sejam feitas concessões para acalmar a opinião pública: é só fazer a coisa bem feita. Pode-se, por exemplo, mostrar integridade e isenção ao divulgar para a imprensa que só será escolhido o substituto de Teori Zavascki depois de o STF decidir quem será o novo Relator do processo da Lava Jato. Nesse meio tempo, tudo se ajeita. Somos 6x5 agora. O novo relator pouco poderá fazer.
Mas pode ter sido um acidente. Como também pode ter sido acidente a queda do avião que matou os diretores da Bradesco-Seguros em novembro de 2015, que tirou da operação Zelotes a possibilidade de futuras delações premiadas de conhecedores dos meandros daquela empresa (leiam o parágrafo quarto do post anterior, O Julgamento dos Horácios). Isso para não falar das mortes, muitas mortes anteriores, sempre às vésperas de momentos politicamente importantes.
Pode, sim, ter sido apenas um acidente. E tudo o mais será sempre apenas teoria da conspiração.
Pobre Dédalo. Melhor crer na fatalidade. As asas eram perfeitas. Alae sanae.


Em tempo: se votássemos diretamente as leis do país, jamais a escolha de ministros do Supremo seria uma decisão presidencial e partidária. Certamente seria dada independência à magistratura para que escolhessem quem melhor os representasse.

Vai demorar, mas chegaremos lá. 

Do autor do Blog, disponível na amazon.com.br 
















O JURAMENTO DOS HORÁCIOS


O juramento dos Horácios, Louis-David

 
Não se apavorem. Nada mudou. São apenas os bancos, sempre os bancos.

Hoje o Senado brasileiro aprovou a famosa PEC 55, que congela os gastos públicos pelos próximos 20 anos. É claro que foi aprovada como sendo remédio imprescindível para conduzir o país a uma gestão mais responsável. Não se pode gastar mais do que se ganha. A ideia é válida e um ajuste fiscal era realmente necessário.

O problema nosso, como sempre, está centrado na desconexão entre o sistema representativo e seus representados. Jean-Jacques Rousseau queria que o soberano, ou seja, o povo, votasse diretamente as leis e que o governante apenas executasse a chamada Vontade Geral. Aqui no Brasil, tanto o governante quanto os representantes do povo usam o poder que recebem pelo voto: ou para representar a si mesmos ou para cuidar dos interesses daqueles que os financiam. Isso é sabido, mas ainda assim nos espanta.

Na tela de Jacques-Louis David, Le Serment des Horaces (O Juramento dos Horácios), os três irmãos juram ao pai sacrificar-se até à morte pela República, ainda que isso cause a desgraça de todos os demais. No canto, ficam os desprotegidos, que sofrem sem nada entender.

É, de certo modo, também o retrato fiel de nosso momento. Nossos três representantes maiores, os presidentes Michel Temer, do País, Renan Calheiros, do Senado, e Rodrigo Maia, do Congresso, todos ao que parece também jurados para cumprir os compromissos assumidos com a República. Ou melhor, com quem talvez os tenha posto no comando da República.

Entendamos.

A operação Zelotes, deflagrada em 26 de março de 2015 para apurar fraudes fiscais de cerca de R$ 19 bilhões, avançou rapidamente e em poucos meses chegou à Bradesco Seguros (para conferir, ponham no Google: Carf, fraudes, Bradesco Seguros). Paralelamente à operação Lava Jato, outras investigações correm no país, maiores ou menores – veja-se o que ocorre por exemplo em Ribeirão Preto, em Osasco, etc. O sinal de alerta soou forte no meio financeiro: as investigações estão chegando aos bancos. Por sorte da Bradesco Seguros – sorte, apesar da tragédia, bem entendido –, justamente o presidente da empresa, Marco Antonio Rossi e seu Diretor Geral, Lúcio Flavio de Oliveira, os homens que comandavam as áreas de seguros e previdência privada do Bradesco, e pessoas da mais próxima confiança de Luiz Carlos Trabuco, o presidente do Banco, sofreram um acidente aéreo no dia 10 de novembro de 2015, ou seja, seis meses depois de iniciada a investigação. Eles estavam num jatinho que caiu numa área rural de Minas Gerais (conferir? ponham Google: Bradesco Seguros, acidente aéreo). A possível fraude de bilhões não é nada em si para bancos poderosos, o problema é que isso pode acender um pavio de complicações (im)previsíveis, com procuradores federais chegando cedo para um cafezinho nas salas da alta administração das principais instituições financeiras do país (lembremos que a operação Lava Jato tem esse nome por ter começado pela fraude apurada em um simples posto de gasolina que lavava carros... e dinheiro). Quando a Zelotes chegar no ponto – e já está quase chegando a hora de pedir os mandados de prisão preventiva – esses executivos do Bradesco não poderão mais esclarecer nada, e nem depois, se fosse o caso, fazer uma possível delação premiada. Vidas perdidas, uma certeza. Perdas para a investigação, uma possibilidade.

A partir do crescimento da Zelotes, a ideia de trocar o presidente do Brasil ganhou mais força no Congresso e na imprensa: talvez fosse a hora de aproveitar a crise econômica provocada pela queda do preço das commodities. A crise era real, acompanhem o gráfico abaixo.



Essa crise foi aprofundada pelas ações do governo Dilma, que errou ao apostar na desoneração, favorecendo as indústrias na esperança de manter o nível de consumo. Não deu certo, o rombo cresceu e deu margem ao consequente desemprego e à insatisfação popular. Bons administradores sabem que nas crises surgem as grandes oportunidades. E o momento tornou-se propício para uma mudança de cenário: sob o pretexto da crise, aos investigados bastaria convencer todos a trocar o presidente do Brasil por alguém que pudesse “estancar essa sangria”. Conseguido o primeiro objetivo, feita a troca de presidentes, tenta-se hoje diminuir a independência de procuradores e juízes, com medidas que ainda não se concretizaram somente porque houve alguma reação popular, e gritos de muitos desses juízes e procuradores ecoando aqui e ali em parte da imprensa. Mas tudo tem seu tempo.

Os compromissos do novo governo Temer já foram tratados neste blog em um post anterior (leiam Sem a música a vida seria um erro). Mas salta aos olhos também o proveito dos bancos por trás de quase todas as medidas.

Sherlock Holmes ensina a Mr. Watson que toda investigação começa por suspeitar de quem mais se beneficiou com o crime. Horácios ou Curiácios?



a) PEC 55: Já que era preciso mexer no controle de gastos, façamos de forma a beneficiar diretamente quem?
OS BANCOS, é claro: vamos congelar os gastos públicos por 20 anos, reservando todos os recursos economizados para pagamento de dívidas, e sem nenhuma contrapartida de reinvestimento. Para entender melhor: o minério de ferro da Vale do Rio Doce, que quatro anos atrás era vendido por US$ 192/ tonelada, está sendo vendido hoje por US$ 41 (confira no site  vale.com). E assim também quase todos os nossos demais itens de exportação. E tem gente que pensa que foi só o petróleo que caiu imensamente de preço. O Brasil tem matriz exportadora, e não aproveitou o período de vacas gordas para formar poupança interna, apostou apenas na expansão do consumo e na atração do capital especulativo que vinha de fora. Agora, com ou sem o teto, só vamos começar a equilibrar as contas quando o quadro externo for revertido. O pagamento dos juros não paga a dívida, só empurra, pois o principal só vai começar a ser resolvido quando a crise das commodities passar. E teto existe para os gastos, não existe teto para pagamento de juros nem serviços da dívida: estes estão livres e priorizados. A bola de neve vai continuar crescendo praticamente na mesma proporção, paguemos um pouco mais ou um pouco menos. Ou seja, vamos paralisar o país apenas – realmente apenas – para pagar juros e rolar dívidas, sem possibilitar a formação de poupança interna ou aumento de produção. Isso beneficia somente os rentistas e o setor financeiro. Em outras palavras, todo o esforço será feito apenas para não prejudicar os bancos, para engordar mais os bancos. Sempre foi assim.




b) REFORMA DA PREVIDÊNCIA
O homem está vivendo mais, as populações envelhecendo, e os jovens tendo menos filhos, ou seja, o mundo todo precisa reformar seu sistema previdenciário. Aqui, como fazer de forma que beneficie... quem?
OS BANCOS, é claro: vamos centrar a reforma da previdência não só na faixa etária, como estão pensando os europeus, mas sim na dissolução do sistema como um todo, forçando todos os possíveis beneficiários – funcionários públicos ou não – a pensar em contratar um plano privado. Você não já está pensando nisso, leitor? Os planos privados terão um enorme boom, beneficiando todo o segmento. Em outras palavras, beneficiando os bancos.



c) CONGELAMENTO DE VERBAS PARA SAÚDE E EDUCAÇÃO
Com o sucateamento ainda maior da saúde e da educação, o que será percebido em poucos anos, quem tem condições, e não o fez ainda, vai ter que pensar em planos privados de saúde e em seguros para garantir a educação dos filhos (educação que tende a ser crescentemente privatizada). Muita expansão de negócios projetada para os já existentes Bradesco Saúde, Itaú Saúde, Bradesco Seguro Educacional, etc – apenas para citar os maiores bancos.

Há sinais? Não seriam necessários, mas é fácil o leitor observá-los. Levantamento da revista CartaCapital, publicado em 9 de dezembro, mostra que, dos 70 compromissos publicados na agenda do Secretário da Previdência, Marcelo Caetano, desde que assumiu o cargo, em 21 de julho, 21 foram com representantes de bancos, fundos de pensão privados e fundos de investimento, e três com organizações patronais. O site, para conferência dia a dia, é

O governo Michel Temer entende que pode não durar muito.

Mas nem todos parecem ter percebido a pressa, a urgência, que têm os três Horácios – Temer, Renan e Maia – em aprovar logo as medidas chamadas necessárias. Pressa, muita pressa. Quase tanta quanto tem o Ministro José Serra em desfazer-se do pré-sal. Como se o Brasil a partir disso fosse realmente começar a trilhar um caminho seguro.

A preocupação do governo é com a contenção de gastos?

A presidente Dilma, a louca, foi afastada no dia 12 de maio de 2016. Ela havia pedido em março autorização ao Congresso para elevar o rombo fiscal do ano para a casa dos R$ 96 bilhões. Um absurdo, disseram muitos congressistas. No dia 20 do mesmo mês, uma semana após o afastamento, o novo governo provisório encaminhou ao Congresso a mesma proposta, mas alterou o valor. Pediu autorização para elevar o rombo de gastos para R$ 170,5 bilhões. Estavam mesmo preocupados com a contenção de gastos? E não nos esqueçamos de que dois dias depois de afastar definitivamente a presidente por ter cometido pedaladas fiscais o Congresso tornou legais as mesmas pedaladas.

Na tela de Louis David, o maior pintor da era revolucionária francesa, vemos os três Horácios jurando amor à República. Eles estão altivos, ruidosos, pegando em armas. Repito, observem no canto a triste e belíssima imagem dos que sofrem com a luta, as mulheres, os simples, os que nada podem fazer senão lamentar.

Nossos três Horácios brasileiros, em nome da República, parecem ter feito outro tipo de juramento.

Isso só vai acabar quando educarmos o nosso povo e votarmos diretamente nossas leis.


Do autor do Blog, disponível na amazon.com.br  



SEM A MÚSICA A VIDA SERIA UM ERRO




O que está acontecendo, afinal?
Muito barulho e pouca música.

Quando as pessoas estão insatisfeitas e não entendem o que se passa, gritam. E gritam por socorro, desejando tambores que anunciem salvação. Ciclicamente isso tem acontecido ao longo da História. Se a orquestra desafina, parem a música, derrubem o maestro, chamem os tambores: é hora de tambores.

Macri foi eleito na Argentina, May é a nova Thatcher da Inglaterra, Trump venceu até contra a grande mídia, Hofer é o favorito na Áustria, Rajoy foi eleito na Espanha, e o segundo turno na França será disputado entre Fillon e Marine Le Pen, ambos de extrema direita. 

Ingenuidade alguém pensar que aqui no Brasil, com a derrocada do PT, seria a vez do crescimento do PSOL ou de outra agremiação alinhada com reformas sociais. Mais próximos estamos de eleger um Bolsonaro (não necessariamente ele) ou um Crivela. A História é assim. Há gente que acha que se Hitler não tivesse chegado ao poder o mundo teria tido outro rumo. Como se não estivessem no poder, no mesmo período, Mussolini, Stalin, Franco, Salazar, Perón e Vargas. A Alemanha sem Hitler seria a mesma, apenas o nome do nazista seria outro.

Mas nunca tivemos o mesmo problema na Suíça. Não porque seja um país pequeno, de exceção.
A Suíça sofreu uma guerra civil entre liberais e conservadores em 1847, guerra que foi vencida por Guillaume-Henri Dufour, um engenheiro civil militar,  defensor das ideias de Jean-Jacques Rousseau. Dufour, natural de Genebra, como o filósofo, conseguiu a pacificação do país levando os Cantões a adotar o sistema de democracia direta como forma de eliminar os políticos que sujeitavam todos a leis que contrariavam a vontade popular. Derrubar muros para construir pontes, disse ele. É o maior herói da história helvética. Ele instituiu o ensino obrigatório, e seguiu os princípios ensinados no segundo volume do Emílio, obra em que Rousseau revoluciona a educação. Inicialmente, nada de livros, diz Rousseau, na primeira infância é preciso buscar a aproximação entre as crianças e a natureza: deve-se ensinar os pequeninos a cuidar de plantas e animais (daí o jardin,  jardim de infância, não o kindergarten de Froebel, que depois deformou a ideia de Rousseau), desenvolvendo primeiro nelas, nas crianças, a sensibilidade, a solidariedade ante a dor dos outros seres vivos, para só depois dar a elas conhecimento. Sem tal formação prévia, todo conhecimento recebido pela criança pode ser usado no futuro para oprimir seus semelhantes. Veja-se que o Congresso brasileiro é composto quase todo por deputados e senadores que possuem curso superior, e nem por isso são pessoas melhores. O general Dufour era um estadista que paradoxalmente preocupava-se até com a dor dos inimigos. Foi ele quem criou a Cruz Vermelha Internacional, fruto de sua experiência na guerra em que demonstrou ser possível vencer batalhas com poucas baixas para si e também para o inimigo.

A Suíça é filha de Rousseau e de Dufour. Mas a Suíça é principalmente fruto da educação. Lá a democracia direta faz com que o país passe ao largo das crises políticas e econômicas, com baixas alíquotas de impostos, economia livre e plena liberdade individual para todos os cidadãos. Tudo decidido diretamente por eles.

Aqui no Brasil a realidade triste acompanha a crise de representatividade que assola todo o mundo ocidental, fazendo com que o povo, desnorteado, busque um salvador da pátria, um homem forte que ponha ordem na casa. Um tambor bem retumbante.

O agravante no Brasil é que essa desordem ultrapassa a crise econômica e escancara a realidade de sermos um país em que a corrupção sempre foi sistêmica, percorrendo todos os segmentos, do homem mais simples das ruas aos empresários mais prósperos, e tudo referendado por um sistema representativo purulento. Vivemos sobre um esgoto fétido, e sempre soubemos disso, mas desta vez a tampa do bueiro voou longe e não estão conseguindo recolocar.

Michel Temer aceitou alguns pactos para satisfazer sua vaidade de chegar ao poder. Sim, vaidade, apenas vaidade, porque ele não é caracterizado por assaltos ao dinheiro público. Convive com a corrupção, aceita-a nos demais, mas vai ser difícil encontrar dinheiro no seu bolso, assim como será difícil também encontrar nos bolsos do Fernando Henrique, da Dilma e mesmo do Bolsonaro. Os valores e os desvalores nem sempre são iguais. Estes quatro são capazes de fechar os olhos aos ladrões, mas na verdade os desprezam. Hitler também era assim, desprezava Göering.

Leiamos aqui os três pactos firmados tacitamente por Michel Temer, e talvez possamos entender este movimento tão polifônico quanto dissonante dessa desmúsica brasileira:

1) PACTO COM OS INVESTIGADOS:
Aos corruptos deputados e senadores, está claro que Temer prometeu inibir as operações da Polícia Federal quando estivesse no comando. Para tanto, deixaria que seguissem em frente as tentativas do Congresso de legislar no sentido de pouco a pouco retirar força do Ministério Público e das investigações. Os planos já estavam traçados antes, pelos principais investigados. Quem ainda tiver estômago, digite no Google os nomes, por exemplo, de Jucá ou de Renan, junto com a palavra “gravação”. São gravações anteriores ao processo de impeachment. As tentativas de barrar a prisão de condenados em segunda instância, anistiar caixa 2 e tornar passíveis de condenação juízes e procuradores, por abuso de autoridade, só ainda não viraram lei porque setores barulhentos de parte da imprensa e da sociedade reagiram de imediato.

2) PACTO COM OS BATEDORES DE PANELAS:
Aos conservadores inocentes, que creem estarem seus filhos sendo doutrinados politicamente por professores comunistas, e pelas redes sociais, Temer oferece uma reeducação. Para Temer – que é culto, professor de direito constitucional – a chamada “escola sem partido” é uma iniciativa boçal, que aos olhos dos intelectuais do país mostra-se claramente como censura política. Inteligente, Temer resgatou um bom projeto de reforma educacional, esquecido no congresso, que previa a escola de tempo integral -- uma antiga luta de todos os que clamam por uma verdadeira reforma do ensino. O cavalo de Tróia? É simples: deixando de ser obrigatórias, as disciplinas que dão margem a discussões políticas cairiam para segundo plano, o que atende às necessidades de despolitização mais imediatas. De quebra, a reforma poderia ser bem vista por empresários e pelos próprios jovens, pois o currículo dá mais liberdade aos alunos, além de prepará-los para um Brasil competitivo, formando trabalhadores tecnologicamente mais capacitados. 

3) PACTO COM O PSDB:
Ao partido que efetivamente representa o liberalismo clássico no país, com toques neoliberais, Temer promete cumprir a agenda do ajuste fiscal e a desregulação das amarras da legislação trabalhista e previdenciária. Ele precisou do PSDB para tirar Dilma e conta com o apoio do partido para governar no congresso. Claro que isso não é exigência dos membros corruptos do PSDB que, assim como os que são corruptos no PT, não têm nenhuma ideologia. Quem dita o perfil do PSDB são os Fernandos Henriques e Artures Virgílios, que sonham com uma pátria que se aproxime da escola de economia austríaca. Os Aécios têm poder, mas não sabem e nem se interessam por saber quem foi Mises: querem apenas dinheiro. O PSDB exige de Temer que cumpra esta agenda neoliberal,  pois o partido já se considera o próximo governo e encontraria, assim, a casa já previamente arrumada, sem necessidade de tomar as chamadas medidas impopulares.

São esses três segmentos que disputam o poder hoje no país. Acrescentem-se aí os movimentos populares que, mesmo baqueados pelo afundamento do PT, possuem nível de organização capaz de fazer crescente barulho nas ruas, agregando os partidos nanicos de esquerda e os grupos minoritários.

E todos os segmentos se odeiam ou se desprezam uns aos outros.

O espetáculo é barulhento, mas aproximando bem o ouvido podemos perceber que até se assemelha a uma peça musical. É tenso, com alternância de movimentos entre adagio, andante, allegro, e prestissimo. Pena que no Brasil poucos aprendem música na escola. Poucos entendem o tom do que está acontecendo.

E Nietzsche nos lembra, em seu Crepúsculo dos Ídolos, na máxima 33... ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum (Sem a música a vida seria um erro).

A democracia direta virá, com o tempo. Depois de fazermos uma revolução educacional que lembre, ainda que de longe, os ensinamentos de Rousseau e Dufour. Aí não precisaremos mais de representantes, que nunca nos representam nem vão representar. Tomaremos nossas próprias decisões sem crer em promessas. Pode acreditar.

Do autor do Blog, disponível na amazon.com.br