O HÁBITO FAZ O MONGE

A arte e sua mimesis

No romance de Mark Twain, o príncipe e o mendigo trocam de lugar para que um saiba como é viver do outro lado.
Feita a troca, o povo passa a adorar aquele que usa as roupas do príncipe.
Aqui no Brasil a adaptação dos papéis seria imediata, cada um sentiria a pele do outro como se fosse a sua própria. 
Não faltam exemplos.
Um nasceu em berço realmente de ouro, em Belo Horizonte, filho e neto de políticos importantes, e aos treze anos já surfava em Ipanema, onde morava no Rio. Começou a vida adulta ao ser nomeado Secretário de Gabinete Parlamentar, aos dezoito anos, quando seu pai, genro de Tancredo Neves, era Deputado Federal. Daí para frente viveu sempre da carreira política do pai ou de sua própria, ancorado na fama do avô.
O outro brotou na favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, no Rio, filho de praticamente ninguém, e aos treze anos iniciou-se no tráfico, surfando em cima dos ônibus, fazendo entrega de papelotes de coaína. Aos dezoito anos, já na vida adulta, ajudado por um amigo, passou a comandar uma “boca de fumo” na Beira-Mar, e viveu sempre da carreira das drogas.
Não sabemos se um dia essas almas se encontraram em alguma esquina do Rio de Janeiro. É até possível, embora talvez eles mesmos não saibam.

Mas são almas rigorosamente iguais. Tiveram apenas percursos diferentes, por suas origens diferentes.
E é muito fácil ver o que faz tantas pessoas votarem no bem nascido para que ele seja o homem escolhido para representá-las e decidir por elas:
A aparência. 
Vivemos numa estrutura de representação em que o marketing político tem a capacidade de convencer mídias e pessoas, e vestir um monstro de tal forma que ele seja visto como homem sério e que zela pelo bem de todos.
Em Mark Twain, também foi difícil o povo descobrir quem era o verdadeiro príncipe quando os dois trocaram de roupa.

É isso a democracia representativa.

Um dia a democracia direta virá, pois só está amadurecendo historicamente.


do mesmo autor, disponível em amazon.com.br






4 comentários:

Lucrecia M.P. disse...

Difícil imaginar que permitam ao povo decidir de verdade, nesse xadrez só nos vêem como peões

Alvaro Maia disse...

É verdade, Lucrecia, mas a história, embora lenta, caminha.

Marcelo Dias disse...

Meu mestre Alvaro, você precisa voltar a dar aulas (DIGITAIS), seja lá como for. Conte comigo!

Jane Lucia Amaral disse...

Tão bom navegar nas suas reflexões, Álvaro! Elas iluminam.